Cantinho Franciscano

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Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz.

Festa dos Estigmas de são Francisco


Hoje, em todo o mundo franciscano e particularmente nesta santa montanha do Alverne, santificada pela presença do Senhor em forma de serafim e pela presença de Francisco, o estigmatizado do Alverne, celebramos o mistério da Cruz que se fez visível na carne do Poverello, realizando-se em seu corpo, de forma visível, aquilo que disse o Apóstolo: “de agora em diante ninguém me moleste, pois carrego em meu corpo as marcas do Senhor Jesus”(Ga 6,17). Paulo carregava em seu corpo as cicatrizes das tribulações suportadas por Cristo (cf. 2Cor 6,4-5; 11,23ss), Francisco leva em suas mãos, pés e no lado, os estigmas da Paixão de Cristo.
As biografias do santo nos narram como aconteceu o prodígio singular dos Estigmas. Perto da festa da Santa Cruz, dois anos antes de sua morte, o seráfico pai subiu a esta montanha, para iniciar a quaresma que costumava praticar em honra do Arcanjo São Miguel. Desejando ardentemente conhecer a vontade de Deus, para configurar-se todo a Cristo, abriu por três vezes o livro dos Evangelhos em nome da santa Trindade, e encontrando sempre a narração da Paixão do Senhor, orava insistentemente para sentir em seu corpo as dores do Crucificado. Teve, então, uma visão da qual sentiu muito gozo e uma profunda dor ao mesmo tempo: era o Senhor em forma de serafim crucificado que lhe manifestava que seria transformado totalmente na imagem de Cristo crucificado. Terminada a visão apareceram na carne deste amigo de Cristo os sinais da Paixão do Senhor: os cravos que traspassaram suas mãos e seus pés, e uma chaga em seu lado (cf. LM XIII, 1ss).

Nesta memória litúrgica dos Estigmas de são Francisco, procuremos acentuar alguns aspectos importantes que nos oferecem este evento prodigioso, partindo da narração que nos oferece são Boaventura. O Doutor Seráfico introduz a narração da impressão das chagas com estas palavras: «Francisco havia aprendido a distribuir tão prudentemente o tempo a sua disposição: parte dele o empregava em fadigas apostólicas em favor do próximo, parte o dedicava às tranqüilas elevações da contemplação. E, por isso, depois de haver se empenhado em procurar a salvação dos demais, segundo o exigiam as circunstâncias dos lugares e tempos, abandonando o ruído das multidões, se dirigia ao mais recôndito da solidão» (LM XIII, 1).
Francisco nos ensina que não podemos ser todo para os demais se não se é todo para o Senhor. E não se pode ser todo para o Senhor, quem não se encontra constantemente consigo mesmo. O Poverello nos ensina a necessidade de buscar para a nossa existência, um “projeto de vida ecológico”, como diríamos hoje, onde o compromisso a favor dos demais seja acompanhado de “vacare Deo”, como diziam os antigos, ou seja, dedicar tempo para Deus, e dedicar tempo para nós mesmos. Francisco, verdadeiro “mendicante de sentido”, estava sempre a procura do homem e sempre a procura de Deus e de sua vontade, como observa São Boaventura, buscava incessantemente encontrar-se consigo mesmo e por isso buscava e amava a solidão.

O homem é certamente um “ser social”, criado “para a relação”, porém, a experiência demonstra, que só quem pode viver sozinho também sabe viver plenamente as relações. Só quem não teme descer na própria interioridade sabe afrontar o encontro com a alteridade, com Deus e com os demais. Ao invés, a incapacidade de interiorização, de habitar a própria vida interior, se converte também em incapacidade de criar e de viver relações sólidas, profundas e duradouras com Deus e com os demais. Claro que nem toda solidão é positiva: existem formas de fugas, que são patológicas, como o isolamento e o medo de relacionar-se com os outros. Porém entre estas patologias e o ativismo desmedido, a solidão é equilíbrio e harmonia, força e firmeza. Quem assume a solidão como fez Francisco, é quem mostra o valor de enfrentar-se consigo mesmo, de reconhecer e aceitar como tarefa própria o ser “ele próprio”. Por outro lado, se alguém, como Francisco, tem como objetivo buscar a vontade de Deus (cf. LM XIII, 1), não pode a encontrar refugiando-se no “grupo”, no anonimato da multidão e nem mesmo fechando-se em si mesmo. Oxalá não seja a solidão um dos maiores sinais do amor: para conosco mesmos, para com Deus e para com os outros. 

A solidão é lugar de unificação do próprio coração e da comunhão com Deus e com os demais. Quando a solidão nos leva a encontrar-nos conosco mesmos, então é purificação das relações, e, para nós, cristãos, é também um lugar de comunhão com o Senhor. Ao comentar o texto de João 5,13, onde se diz que o homem que foi curado não sabia quem o havia curado, já que Jesus havia desaparecido entre a multidão, Santo Agostinho escreve: “É difícil ver a Jesus em meio da multidão; necessitamos da solidão. Na solidão, com efeito, se a alma observa bem, Deus se deixa ver. A multidão é ruidosa, para ver a Deus necessitamos do silêncio”. Por outro lado, a solidão é o crisol do amor: as grandes relações humanas e espirituais não podem deixar de cruzar a solidão. Certamente, o cristão, como Jesus, deve preencher a solidão com a oração, com a luta espiritual, com o discernimento da vontade de Deus, com a busca de seu rosto. Francisco em tudo isto se nos apresenta como um verdadeiro mestre, tendo sido um verdadeiro discípulo de Cristo. 

Na verdade, o Cristo, em quem dizemos que cremos e que dizemos amar, o encontramos constantemente em lugares afastados para orar, buscando a solidão para viver a intimidade com o Abba e para discernir sua vontade. Aquele que viveu na cruz a plenitude da intimidade com Deus, conhecendo o abandono de Deus, recorda ao cristão que a solidão é mistério de comunhão e nos ensina que a máxima solidão manifestada na cruz é mistério de amor, a maior manifestação do amor do Pai para conosco. “Tanto Deus amou o mundo que deu o seu Filho único” (Jo 3,16); a maior manifestação de amor de Jesus pela humanidade: “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).

«Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz cada dia, e siga-me” (Lc 9,23), escutamos no Evangelho de hoje. Encontramos nestas palavras um compêndio da vida cristã, o espelho da Palavra com que o discípulo deve conformar o seu próprio rosto. Como cristãos, nossa vida deve levar impressas as características de Jesus, o Filho crucificado por amor. Olhando «ao que traspassaram» (Jn 19,37), a cruz se converteu num selo de pertença a Deus em Jesus (cf. Ap 7,2ss; Ez 9,4). Levar a cruz cada dia é assumir nossos males, é morrer cotidianamente por Cristo, vivendo para ele, até poder dizer: «Estou crucificado com Cristo: vivo, e não sou mais eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Ga 2,20). Tomar a cruz significa sentir-se crucificado com Cristo, ser partícipes da Paixão do Senhor Jesus, sentir que somos dele e que já não nos pertencemos mais a nós mesmos. Disse Bento XVI: Para levar a pleno comprimento a obra da salvação, o Redentor continua a associar a si e à sua missão homens e mulheres dispostos a tomar a cruz e segui-Lo. Como para Cristo, assim também para os cristãos levar a cruz não é opcional, mas é uma missão que deve abraçar com amor. Em nosso mundo atual, onde parecem dominar as forças que dividem e destroem, Cristo continua oferecendo a todos, seu claro convite: “quem quiser ser meu discípulo, renegue ao próprio egoísmo e carregue comigo a cruz”. Peçamos a intercessão do Estigmatizado do Alverne, para que o Senhor nos conceda seguir com decisão atrás dEle, conformar-nos à Paixão de Cristo e ser partícipes de sua Ressurreição.

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